domingo, 25 de maio de 2014

" Por acaso? "

 
Luda Lima - Por Acaso?




Existe o que acontece aleatoriamente,
e passa sem nem percebermos.
E existe o acaso.



Roberta Ar


inspirado no Por acaso? 
da Roberta Ar + Luda Lima



Todo dia você faz tudo sempre igual, aos poucos a vida vai seguindo o curso natural e tal como numa correnteza não se tem muito tempo para pensar. 
A rotina deixou de ser uma companhia agradável, a sensação é que se está presa no tempo vivendo sempre o mesmo dia.
O tempo passa em sua janela mesmo que você insista em ficar parado e então vem o acaso que não precisa de explicação e motivo e joga o novo na sua cara, parece que a rotação muda do zero para a mais alta do liqüidificador. 
Não se tem tempo para decidir nada, já vem pronto para digerir, muitas vezes se engole sem pensar. O que era possibilidade ou mesmo impossível vira realidade. 
Escolhas  são permitidas, mas se você optar pela segurança pode perder o encanto do novo e o momento de recalcular a sua rota.
Não sei dizer o momento que me fez mudar a direção ,  se foi naquele primeiro olhar perto da janela  que uma centelha acendeu, ou na palavra bem dita que ficou nos meus ouvidos,  talvez, naquele primeiro dia em que ele me ofereceu a cadeira para sentar…
Fui longe, mergulhei, afundei, submergi, cheguei a superficie, me arrastei, andei com os pés na areia, flutuei, voei, sonhei, inventei  uma realidade, fiz sonhos, realizei, vivi, sofri, mudei, fui com minha cara no vento, no tempo do furacão, me deixei levar.

A vida me encanta sempre, me seduz, podemos não ter caminhado juntas por um tempo, deixei-a em estado de espera enquanto achava ter o destino nas mãos. Quando se faz planos ela pode escorrer por entre os dedos. Mas sempre existem as possibilidades, o novo, o inesperado, o que chega sem avisar. E assim a cada momento, tudo pode acontecer, até mesmo você ser feliz.
Quando se aprende a correr riscos é dificil voltar a criar raízes. 
Quando abandonamos certezas prontas aprendemos a aceitar novos sabores. 
Sair do casulo pode ser dolorido, sofrido, leva-se um tempo para acostumar com asas e cores. Mas não tem volta. As mudanças se infiltram. 





este post é parte integrante do projeto “caderno de notas – terceira edição” do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Tatiana Kielberman, Tha Lopes e Thelma Ramalho.

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domingo, 18 de maio de 2014

As cidades estão cheias de passado!

google images




Pelas ruas da velha cidade existem marcos e marcas do passado.
Descendo a Ladeira de São Francisco, que foi sua primeira rua, paramos na Casa da Polvora, erguida em posição estratégica em 1710, de lá podemos observar um lindo por de sol que tem ao fundo o Rio Sanhauá. No pé da ladeira, escondida no muro de uma residência, a Bica dos Milagres, que passa desapercebida aos olhos de quem não sabe de sua historia.
Ali bem próximo uma outra fonte, a do Conjunto Franciscano guarda a história de um crime passional, o romance entre um frade e uma senhora casada terminou ali, com a morte deles naquele local.
Na porta principal da Igreja de São Francisco repousa um governante, que sabendo ter sido um mau governador pediu para ser enterrado ali onde todos teriam que pisa-lo ao entrar na igreja.
Voltando a cidade alta, seguimos até a Igreja  de Misericórdia, construída em 1592. Em sua fachada ainda vemos a Roda dos Expostos, onde as moças deixavam seus filhos “bastardos”para adoção. Naquela mesma rua morava Peregrino de Carvalho, jovem idealista que proclamou a Republica em 1817. Foi julgado , condenado e esquartejado ficando para exposição da população em algumas esquinas da capital.
Continuando pela Rua Duque de Caxias passamos pela Praça Rio Branco, era lá o Pelourinho onde tantos negros foram açoitados e uma grande incêndio destruíu a Casa do Capitão-Mor no final do século XIX. A rua ainda conserva vários sobrados, alguns quase destruídos por falta de conservação em total descaso dos seus proprietários.
Na cidade baixa, nos alicerces da Igreja de São Pedro Gonçalves encontraram o que muitos pensaram ser um muro que circundava a cidade no tempo da invasão holandesa, mas consta também que naquele local foi erguido o primeiro forte para proteção da população.
Um belo casarão abandonado no bairro de Tambiá tomba por conta de questões familiares. Dizem que em suas paredes já esteve um Van Gogh que foi destruído num incêndio nos anos 30.
No sótão do sobrado na Rua da Areia encontraram equipamentos de transmissão alemães na época da Segunda Guerra Mundial, prova que os nazistas estiveram por aqui. Contam que um submarino teria sido abatido próximo a costa do estado.
Na praia de Tambaú desapareceram as ruínas da Igreja do Almagre, construída por Jesuitas no sec XVI e visitada por Mário de Andrade nos anos 20, hoje ninguém sabe onde estava situado o conjunto arquitetônico.
A outrora Filipéia de Nossa Senhora das Neves, Frederika ou Parayba do Norte, hoje João Pessoa é feita de nossas histórias, nosso segredos. Suas ruas estão cheias de passado, já escrito, esperando por novas palavras, novos contos, novas lendas…




jardim das acacias - ze ramalho



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domingo, 11 de maio de 2014

escrevo o que ainda conheço






A natureza da saudade é ambígua: associa sentimentos de solidão e tristeza – mas, iluminada pela memória, ganha contorno e expressão de felicidade.

Cecilia Meireles


Saudade é palavra que só existe na língua portuguesa… nos demais idiomas não se define – é preciso várias outras palavras para dizer o que apenas nós sabemos: uma casa vazia, um coração deserto e o corpo em suspenso…

Ouço o eco de nossas risadas juntas pelos cantos da casa onde traçamos tantos planos, tivemos nossas conversas nas madrugadas ao som do rádio e Tv… eu gostaria tanto de acreditar em paraíso e juízo final. Queria saber que a gente ainda vai se encontrar dentro desse amanhã que eu não alcanço…

Nós duas tivemos de tudo… carinho sem palavras ou gestos, mas que estavam lá a nossa disposição… Amor nos detalhes dos dias vividos... Proteção e sabedoria, cumplicidade e amizade e uma certa rivalidade natural… Eramos mãe e filha, mas também éramos mulheres, aprendi a ser mulher com você, aos poucos…

Duas pessoas numa tempestade a deriva se aproximam em simbiose. Mãe e filha são separadas e conectadas pelo cordão umbilical… depois elas podem ou não permanecerem unidas – foi diferente com a gente – ficamos apenas nós duas contra o mundo ainda cedo... sobrevivendo a essa palavra – saudade – e a tudo que ela nos impôs…  novos tempos.

Você foi uma lutadora, uma sobrevivente… a vida não lhe foi generosa – não lhe ofereceu tréguas – mas você virou o jogo… lutou e como uma fera inquieta – mudou o seu destino várias vezes – sempre acreditando… seguindo em frente. Adaptou seus sonhos… soube, como poucos, ser flexivel com as adversidades.

Aprendi a vida pelos seus olhos que me mostraram o céu de estrelas do sertão antes de me levar até lá...Contos de fadas e personagens históricos se misturavam nas suas histórias contadas para que o sono fizesse morada em meus olhos… Queria você aqui hoje e amanhã também – cantando para eu dormir… indo ao meu quarto dentro da madrugada para cobrir meu corpo, aquecido pelo seu gesto…

Queria escutar todas as frases que me faziam brigar com você – sinto falta de tudo – até mesmo das nossas discussões e implicâncias. Tenho pra mim que você se divertia com isso depois que a ternura voltava..

Estou reconstruindo tudo… procurando atalhos. Escalando abismos – inventando novas pontes para esses caminhos que não sabem de seu passo – estou a aprendendo novas palavras. Tentando viver uma nova história mas só consigo isso por enquanto, por isso escrevo o que ainda conheço…



Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.


Carlos Drummond de Andrade


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domingo, 4 de maio de 2014

Assim passam os anos




A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência

Hilda Hilst








Eu tinha 2 anos quando os meus pais resolveram comprar uma nova casa. Finalmente eles tinham conseguido voltar a cidade em que seus familiares moravam. Parece que o nordestino quer sempre fazer parte de uma grande família, e sempre retorna para perto de seus pais.
Foram muitas visitas até que chegamos a casa com um grande jambeiro na frente, e um terraço que para uma pequena garota parecia um parque de diversões. Era enorme, o piso de cerâmica vermelha, a minha cor preferida, parecia convidar as mais diversas brincadeiras. A minha primeira reação foi correr de braços abertos como se quisesse abraça-lo, e meus pais decidiram naquele momento que ali seria nosso lar. 
O espaço foi o meu território livre, podia largar meus brinquedos, jogar bola e até andar de bicicleta. Um paraíso.
No jardim, na sombra do jambeiro, um pequeno tanque de peixes ornamentais se transformou na minha piscina. Ali reunia minhas amigas e primos num delicioso programa de fim de semana. Até os mais velhos chegavam e ainda tentavam mergulhar na profundidade de dois azulejos, não sei como eles conseguiam!
O dia de lavar o terração era o melhor de todos, todo mundo escorregava até o portão de entrada da casa, era nosso tobogã particular. Muitos vizinhos pediam para brincar com a gente também. Suas grades protegiam as crianças e a casa. Ali fazíamos as festas de aniversário, meu primo tocava com sua banda, meu primeiro beijo foi lá em um dos famosos “assustados” que minha turminha de adolescência organizava, minha mãe passava seus dias ali bordando suas toalhas e nossa união foi abençoada pela família e amigos ali, em meio a tapetes e rosas vermelhas.
Algumas reformas foram feitas na casa, nenhuma delas modificou aquele lugar sagrado. O piso não suportou o peso de ser transformado em garagem, as cerâmicas não puderam ser substituídas já não existem mais, tivemos que preenche-la de uma maneira artesanal que desfigurou sua beleza.
O pequeno tanque já não segura mais a água, hoje resiste ao tempo, mas sem utilidade…
O velho jambeiro ainda protege a casa do sol da tarde. Seus frutos são deliciosos e  sempre sofro todas as vezes que precisamos fazer uma poda em seus galhos.
Assim passam os anos, as pessoas são outras, mas aquelas paredes guardam nossas vidas e segredos que contamos e não contamos...




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