quinta-feira, 28 de novembro de 2013

" É sempre tarde quando acordo"


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Se eu pudesse lhe escrever  diria tantas coisas…
A começar por aquela pequena bicicleta de rodinhas, tira logo, descarta você não vai precisar delas.  Uma vez que você aprende a se equilibrar vai ser assim por todos os tempos, é algo que a gente nunca esquece.
Não perca tempo chorando com seus joelhos machucados, põe mercurio cromo e vai brincar mais, tenta perder o medo de subir em muros e árvores, depois vai ficando mais dificil, assim um dia que estiver só vai poder aproveitar os galhos do velho jambeiro.
Aproveita mais suas horas ao lado da sua avó, conversa mais com ela, aprende mesmo aqueles pontos de croché, não fica só enrolando. Ah! guarda bem aquele soneto que seu avô lhe ditar, não joga o caderno naquele quarto de livros , você pode perde-lo.
Se num dia de sol seu pai chegar para se despedir de você na praia, faz com que ele fique, chore, grite, faça bico, finja que está doente, não o deixe sair. Abraça e diz que quer ficar do lado dele para sempre. Se tudo isso não der certo, pede para ele ter cuidado, que volte ainda durante o dia, aquela estrada é perigosa.
Diria também para você escutar menos a razão, de vez em quando se solte, pense sozinha, subverta, rodopie na ponta dos pés, e não, não desista das aulas de balé e piano,  entre no time dos atletas de natacão e não tente a ginástica olimpica ela vai te machucar.
E aquele menino de cabelos loiros vai te fazer bem, mas aquele beijo no carro vai trazer problemas sérios.
Desista de fazer vestibular de arquitetura, uma decisão tomada aos 7 anos tem que ser revista aos 17, não acha? Namore mais, beije mais, se deite quando tiver vontade. Casamento não é para agradar aos pais é para ser feliz.
Experimente, ouse, pense, voe com o vento, tudo passa rápido. Continue ouvindo sua mãe, acredite, ela sabe das coisas. Mas Elis é divina, nisso ela está errada.
Um dia você vai perder o medo dos gatos , faça cirurgia em Chanel, nunca lhe dê injeções. Não deixe Estelinha atravessar a rua…
Use aquele aparelho ortopédico, você vai agradecer quando não tiver dores de coluna. Não tome aquela jarra de suco de maracujá sozinha. Não sopre no fucinho de Puppy. Experimente logo o pavê de sua mãe e os brigadeiros nas festas de aniversário. Guarde aqueles discos que seu primo maluco deixou em sua casa, um dia eles valerão mais de 3 mil reais cada um. Não corte o cabelo tão curto aos 4 anos, e aos 25 fuja daquela cabeleireira, ela vai fazer estragos.
Obrigue sua mãe a ver Portugal, sequestre-a se for o caso.
Não faça tantos planos, deixe o acaso vir.
E num dia qualquer quando uma amiga sua tiver uma loja de cds vá visita-la  pela manhã,  e se um rapaz com belos olhos castanhos lhe oferecer seu lugar beije-o naquele instante, não perca tempo.  Acho que vou escrever outra carta para ele, explicar que tempo que passa é tempo que a gente deixa de ser feliz. Pensando bem, vá no jogo de handebol que você planejou ir e não foi, ou no show daquela banda que você tanto quis ir e nunca deu certo, tente encontra-lo antes!
Saiba que mesmo a gente não sentindo, os dias vão passando, os sonhos vão mudando, outros não, e um dia percebemos que já não somos mais os mesmos, mas sempre existem atalhos e novos caminhos a percorrer. Só o tempo que não para.
E se você soubesse de tudo isso teria sempre esta sensação de que é tarde quando acorda?




*Este post faz parte do projeto “Caderno de Notas”, do qual participo ao lado das escritoras Ana Claudia MarquesIngrid CaldasLetícia AlvesLuciana Nepomuceno,Lunna Guedes e Tatiana Kielberman. O tema da semana é:" É sempre tarde quando acordo"

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

em algum lugar de mim...




Meu amor,

Tudo em volta está deserto, tudo incerto. Tudo vai mal não me iludo e contudo aqui estou.

A velha magia desencantou. O Superhomem perdeu a capa, mas quem foi ao chão fui eu.
Chorei as mesmas lágrimas(re)passei por caminhos que pensava perdidos, o labirinto que nunca me levou a lugar nenhum.
Palavras exumadas exalam o mesmo odor dos defuntos.
Contra minha vontade voltei para onde um dia quis te deixar. Passamos por tantas ruas, calçadas e trilhas. Já nos vimos sorriso, lágrimas e gritos, nos abraçamos, nos jogamos, paramos e nos desencontramos, eu muito, você um tanto.
Depois de uma mentira toda verdade se transforma em dúvida, li isso em algum lugar.
Palavras vãs, escritas e ditas me assustam, elas tem o poder de transformar nada em algo concreto?
As agulhas estão espetadas no meu corpo, todas as vezes que respiro dói. Esquecer é verbo transitivo direto e indireto. Eu não consigo conjugar.
Existe o tempo de ficar, o tempo de insistir, o tempo de mudar, e estou sem direção. E essa tal felicidade, existe ou temos que procura-la para sempre?
Eu vou caminhando contra o vento, eu vou por entre cores e nomes, tantos nomes, fantasmas.
A insensatez que você fez coração tão descuidado, me desfez em dor e duvidar de ter amor, o meu amor tão dedicado.
A dor me sufoca, me atormenta. Me consome.Vai, volta, permanece
Tudo ainda queima, nada foi esquecido. Não fez sentido, não faz sentido. Por que sempre espero lógica onde existe ebulição?
Estou presa no tempo, entre espelhos, sombras e medos.
O tempo que corre, que para, que nos atropela. Menino levado, vento, corre, estanca. Dor, novelo dentro de mim, nó que não desata, risco na minha pele que sangra sempre que o pensamento voa, vai, volta me toma inteira e me leva para o quarto escuro onde tudo grita, espanca, e me joga ao chão. Seguir e acreditar é desafio de quem ainda insiste ser romântica.
Em algum lugar de mim você está, nas palavras soltas ou quando canto alto dentro do carro , quando a noite chega e você sopra os meus cabelos ou quando os seus olhos acertam os meus.
Quando penso em você em algum lugar de mim busco sonhos. Visto roupa colorida. "Não adormeci meu vício de ti".
Em qualquer lugar de nós existe sons e beijos e braços e abraços. Em algum lugar dentro de nós quando o tempo tiver transformado dor em tempo, um arrependimento, um olhar, uma palavra me trará de volta o encanto?
E quem sabe o Superhomem mude o rumo da nossa história…
E seremos quase sempre felizes para sempre.
"Até que o que sobreviva de nós seja só amor".


"Ai vai meu coração"



*Este post faz parte do projeto “Caderno de Notas”, do qual participo ao lado das escritoras Ana Claudia MarquesIngrid CaldasLetícia AlvesLuciana Nepomuceno,Lunna Guedes e Tatiana Kielberman. O tema da semana é: “Em algum lugar de mim”.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A carta que você não vai ler







Domingo, 23 de dezembro de 2012



O dia amanhecia, o sol nos seus primeiros raios, os pássaros cantavam alto, o telefone tocou. A noticia já se previa. 
Chegamos ao hospital, levei seu perfume Chanel 5 e suas pérolas. 
As próximas horas foram de pura burocracia, coisas práticas que você sempre me ensinou a resolver. Pedi que arrumassem o seu cabelo e passassem seu batom.
Sentei-me naquela sala e não conseguia ficar triste, porque as lembranças boas eram tantas que invadiam os meus pensamentos e secavam as lágrimas.
Aos poucos as pessoas chegavam , me cumprimentava e mais histórias eram contadas, algumas eu não sabia! Você imagina isso? 
Sempre fomos de poucos amigos, e esses poucos sempre foram muito queridos, e eles foram te ver. Não fiz convites, não fiz anuncios, era um domingo, e você nunca acreditou nisso. 
Escolhemos flores claras , nunca as roxas eu sei!
Parecia uma daquelas reuniões lá em casa, amigos recordando tudo de bom que você nos deixou. Foi leve, até Elvis cantou para você: It's Now or Never.
Em alguns momentos queria falar, sabe aquelas nossas conversas no quarto quando acordávamos? Até perguntei: O que vai ser do mundo agora sem você. Porque desde que me entendi por gente o meu mundo era o seu, e o seu mundo era eu. 
Quero voltar a ser filha. Ter colo. Me aninhar.
Onde você está agora? Queria acreditar em reencontros, na luz e paraisos.
Não sei para quem estou escrevendo, talvez seja para diminuir abismos.
Estou só. Me sinto só. Estou forte, foi assim que aprendi.
Agora não somos mais nós duas e o mundo. Sou eu em outro mundo. Novo, desafiador. 
Entro em casa ligo a tv, os canais vão passando e paro : …E o vento levou. 
Parece até que foi em sua homenagem. E esse dia que foi o mais triste de todos, teve sua beleza, como aquele raio de sol que entrou nas folhagens…

um beijo mãe.